Luna Lunera: lua enluarante; expressão hispânica que diz da lua de aura encantadora; jogos lúdicos da infância.

Éramos ainda uma turma de estudantes de teatro do Cefar- Centro de Formação Artística do Palácio das Artes, quando fizemos nossa primeira peça juntos: “Fuleirices em Fuleiró”, com direção de Marcos Vogel, e texto de Mário Farias Brasini. Aquela era nossa primeira montagem e começava nas ruas e praças. Éramos uma turma, mas já havia ali o embrião de um grupo.

Em nossa montagem de formatura, “Perdoa-me por me Traíres”, concentramos aqueles três anos de formação, influenciados, sobretudo, pelo estudo da Antropologia Teatral.  Queríamos montar um texto de Nelson Rodrigues e vivemos um encontro muito fértil com Kalluh Araújo num momento inspirado, que nos trouxe o teatro-dança e a paixão pelo trabalho de Pina Baush. Nasceu um espetáculo potente, de fisicalidade intensa, com recepção calorosa do público, da crítica e da classe artística.

Já batizados como Cia. Luna Lunera, veio “Nesta Data Querida”, resultado do Projeto Cena 3 X 4, iniciativa do Galpão Cine Horto e da Cia. Maldita que propunha uma pesquisa sobre o Processo Colaborativo de Criação. Rita Clemente assumiu a direção, Guilherme Lessa a dramaturgia, e a Luna Lunera a atuação, num processo sem hierarquias, com criação de dramaturgia inédita e o ator fazendo-se dono do seu próprio discurso. Abriu-se um novo horizonte. Despertou-nos a ideia de autoralidade, que mudou tudo, e influenciou todos os nossos trabalhos posteriores.

Não desperdice sua única vida ou O mundo das precariedades humanas ou Auto Biográfico ou As patinadoras no planeta do dragão ou Seis atores à procura do seu personagem ou Nenhuma das opções anteriores”, resultou de pesquisas sobre teatro épico, ator rapsodo e dramaturgia do espaço. Cida Falabella, diretora deste espetáculo, nos provocou com a questão “por que fazemos teatro?” e “por que fazemos teatro juntos?”. Vieram à tona nossos relatos autobiográficos, em meio a crônicas, obras literárias diversas, matérias jornalísticas, programas televisivos, e, pouco a pouco, as improvisações iam desvelando as contradições cotidianas, as precariedades, as ironias do mundo à nossa volta, do nosso próprio mundo e do confronto desses mundos!

Depois veio o processo que gerou “Aqueles Dois”.  Pela primeira vez, não tivemos um diretor ou preparador externo. Tudo começou como um grupo de estudos sobre Contato Improvisação, técnica corporal criada por Steve Paxton, e o Método das Ações Vocais, recorte do estudo desenvolvido por Stanislavski. Era para ser apenas uma pesquisa interna, mas nos apaixonamos pelo conto de Caio Fernando Abreu e vivenciamos uma radicalização do processo colaborativo, tendo os atores-criadores assinado a dramaturgia, a direção e a atuação.

Para o quinto espetáculo, “Cortiços”, convidamos um diretor coreográfico. Isso atendia ao desejo de aprofundar nossa pesquisa corporal, com uma investigação de diferentes sistemas, que nos serviram como força-motriz para a criação de personagens/personas. Corpos que se confrontam e que confrontam as relações entre o teatro e a dança. Garrafas e líquidos como metáforas de escassez, riqueza, força de trabalho e rituais de passagem, em um trabalho livremente inspirado no romance “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo.

Com concepção e dramaturgia próprias, “Prazer”, nosso sexto trabalho, recebeu colaborações artísticas muito importantes para nós: a atriz Roberta Carreri (OdinTeatret), o bailarino e coreógrafo Mário Nascimento, o videoartista Éder Santos, além da orientação dramatúrgica de Jô Bilac . Um fragmento do livro “Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” de Clarice Lispector, em que um dos personagens diz que “uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive, muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente” nos inspirou a iniciar o processo de criação do espetáculo, em que vemos quatro velhos amigos lidando com seus “apesares” cotidianos em um reencontro em um país distante.

Nosso mais recente trabalho “Urgente”foi criada em parceria com o Areas Coletivo de Arte, discute as delicadas relações que o ser contemporâneo trava com o transcurso irrefreável da vida. Com direção de Miwa Yanagizawa e Maria Sílvia Siqueira Campos, a peça discute relações atuais com o tempo e tem trilha sonora assinada pela banda Constantina. É recorrente a impressão de que os dias, meses e anos passam cada vez mais rápido, assim como a sensação de impotência diante disso. Pessoas relatam a infinidade de planos e sonhos que morrem nas gavetas, a vida adiada para um futuro que nunca chega. O presente parece tornar-se, muitas vezes, o cumprimento de um amontoado de obrigações quase mecânicas. Em um mundo ainda regido pela obsessão pelo novo, o envelhecimento das pessoas e dos objetos é visto como ameaça da ampulheta impiedosa. Com 1h40min de duração, “Urgente” busca criar uma pausa, suspender o tempo, para criar com o público um tempo (ou um passado) em comum.